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Cientistas transformam areia do deserto em solo que retém 28 vezes mais água

Cientistas transformam areia do deserto em solo que retém 28 vezes mais água

Pesquisadores de Abu Dhabi e da Suíça criaram um método para transformar areia do deserto em um material parecido com solo fértil. A técnica usa bactérias e fungos que produzem biopolímeros naturais, e a combinação mais eficiente fez a areia reter água até 28 vezes mais tempo do que a areia pura.

Como funciona a “areia viva”

A equipe reúne cientistas da Universidade Khalifa, em Abu Dhabi, e dos Laboratórios Federais Suíços de Ciência e Tecnologia de Materiais (EMPA). Eles selecionaram bactérias e fungos capazes de secretar biopolímeros.

Esses biopolímeros são moléculas naturais de cadeias longas, parecidas com plásticos biológicos. Ao se espalharem entre os grãos, formam uma rede que une as partículas de areia.

“Isso cria uma espécie de material compósito natural”, disse o professor Gustav Nystrom, do EMPA.

Essa rede deixa a areia mais resistente à erosão e reduz a velocidade com que a água escapa entre os grãos, efeito que normalmente só solos argilosos ou ricos em matéria orgânica conseguem produzir.

Da areia à malha de celulose

Os pesquisadores incubaram amostras de areia do deserto de Abu Dhabi com diferentes microrganismos em uma solução nutritiva e depois mediram resistência mecânica e permeabilidade à água.

As amostras tratadas apenas com bactérias já reduziram a permeabilidade à água em até seis vezes na comparação com a areia pura.

O resultado mais expressivo veio de outra estratégia: usar bactérias que secretam nanocelulose para fabricar geotêxteis, uma espécie de tapete de celulose, e combiná-los com a areia em camadas. Essa estrutura reduziu a permeabilidade à água em 28 vezes.

Por que isso importa para a agricultura

Solo arenoso tem dois problemas crônicos: a água escoa rápido demais, o que obriga a irrigar com muito mais frequência, e os grãos não retêm nutrientes orgânicos nem se aglomeram, o que facilita a erosão.

Ao reter mais água e sustentar mais microrganismos, a areia tratada pode ser um primeiro passo para transformar terrenos desérticos, hoje inúteis para construção e para plantio, em solo cultivável.

“Esta abordagem nos permite introduzir matéria orgânica e água na areia e estabilizá-la um pouco”, afirmou Nystrom. “Em termos ideais, isto permitirá o crescimento de mais microrganismos e plantas, iniciando o processo de tornar o solo mais resistente e fértil.”

Mesmo com os biopolímeros, a areia não ficou compactada demais, o que poderia travar o crescimento das raízes das plantas.

De onde viriam os nutrientes

O professor Blaise Tardy, da Universidade Khalifa, destacou que os insumos para o processo já existem perto dos próprios desertos.

“A implantação destes microrganismos não é ficção científica: o deserto está lá, e os nutrientes estão prontamente disponíveis, por exemplo, açúcares provenientes de resíduos alimentares e nutrientes complexos em resíduos verdes municipais”, acrescentou.

O que ainda falta

Por enquanto, todos os testes aconteceram em laboratório. A próxima etapa é levar os mesmos biopolímeros para estudos de campo controlados e estufas.

Só esses testes vão mostrar o efeito real da areia tratada no crescimento das plantas e qual é o verdadeiro potencial da técnica para virar agricultura em escala.

Perguntas frequentes

O que é a “areia viva”?

É areia de deserto tratada com bactérias e fungos que secretam biopolímeros naturais, formando uma rede que estabiliza os grãos e retém mais água, como um material compósito natural.

Como os microrganismos melhoram a areia?

Eles secretam biopolímeros que unem os grãos de areia, reduzem a erosão e diminuem a velocidade com que a água se infiltra, criando condições para mais microrganismos e, depois, plantas crescerem.

Qual foi o melhor resultado do estudo?

A combinação de areia com geotêxteis feitos de nanocelulose produzida por bactérias reduziu a permeabilidade à água em até 28 vezes, o melhor desempenho entre os métodos testados.

Quando a areia viva pode ser usada em plantações de verdade?

Ainda não há prazo definido. Os pesquisadores concluíram apenas a fase de laboratório e planejam avançar para testes de campo e em estufas para avaliar o crescimento real de plantas.

Com informações de Inovação Tecnológica.
Imagem: reprodução/Inovação Tecnológica